Entrevista com João Bittar

Por Rodrigo Paiva* 


Com o avanço da tecnologia digital, o fotojornalismo tornou-se mais prático, ágil, instantâneo. Fotógrafos mais antigos ainda cogitam sobre as limitações da fotografia digital. Alguns chegam afirmar que a digital provocou uma desvalorização da estética fotográfica, conseqüentemente, a degradação do romantismo fotográfico. Para estes saudosistas uma má noticia. “A fotografia digital será dominante, …. o filme irá diminuir, será artigo de luxo, chique como o preto e branco ficou”. afirma João Bittar.
João, simplesmente como é chamado por amigos, iniciou sua carreira como Office boy 1967 na Editora Abril. Na década de 80, foi criador da importante agência de fotojornalismo Angular. Em 94 foi convidado para ser Editor de fotografia da Folha de S.Paulo, onde implantou o processo de digitalização fotográfica no jornal, o primeiro Pais. Hoje, preside cargo de editor de fotografia das revistas Época e Quem. João formou toda uma geração de fotógrafos, como Marlene Bergamo, Cláudio Pedroso, Cláudio Rossi e Egberto Nogueira, entre outros. Com simplicidade costuma dizer que sempre teve sorte na vida.
Nesta entrevista, João esclarece alguns pontos do fotojornalismo digital e dá um alerta os fotógrafos mais céticos, “Hoje é tudo digital, só sobreviverão os mais informados”.

RP – Como e quando começou na fotografia e quais foram as maiores dificuldades?
João – Sempre quis ser jornalista. Aos 10 anos me interessei pelo jornalismo. Lembro que aos 11 anos comprava o Estadão. Aos 15 anos fui na Editora Abril pedir emprego de jornalista, é claro que não me deram, consegui apenas emprego de Office boy, fui parar justamente na fotografia.
No laboratório passei por todas as fases, assistente, contateiro, acabamento, carimbava as fotos, identificava. Foi uma experiência riquíssima, principalmente porque olhava as fotos do mundo todo, americanos, europeus, etc…
Aos 17 anos já tinha minha câmera. Um amigo meu, fotografo da Veja, que me ensinava a fotografar e me abriu algumas portas para o mercado. Quando ele estava de saco cheio de fotografar, me mandava no lugar dele, isto foi muito importante para o início da minha carreira . Naquela época havia uma grande carência de profissionais, fui batalhar nas revistas e jornais. Em 69 comecei a fotografar regularmente para Veja. Na revista Veja fui fazer um tipo de fotografia que ninguém ainda fazia, não que eu seja genial, apenas assimilei a maneira que os fotógrafos das revistas estrangeiras, como Newsweek, Times, etc, fotografavam. Sabia que tinha que mostrar o homem e seu trabalho, em pouco espaço, colocar todas as informações no contexto da pauta. Apesar de ter apenas 17, 18 anos, fui o primeiro a interpretar isto direito. Consegui me dar muito bem e fui contratado pela revista Exame. Basicamente foi assim que comecei. Sou praticamente das últimas gerações de profissionais que começou no laboratório. Foi um tempo muito rico, a Editora Abril era muito rica e foi muito útil para minha base. Comecei em berço esplêndido. O mercado carecia de gente e minha maior sorte foi à oportunidade de poder produzir. Hoje em dia, a pessoa com o mesmo preparo que eu, terá muita dificuldade. Enfim, tive muita sorte.

RP – Você concorda que estamos vivendo na nova era da fotografia, a “Era da imagem digital”. Como foi a sua adaptação neste momento de transição?
João – Mais uma vez tive muita sorte. Em 1994, fui convidado para pilotar o projeto de digitalização do jornal Folha de S. Paulo. De 1995 a 2000, tive a chance de ir para Estados Unidos todo ano acompanhar reuniões da National Press Photographers Assossiation. Debatíamos dias sobre a questão digital, arquivamento, transmissão, tudo que envolvesse a tecnologia e a fotografia.
A Folha de S. Paulo foi o primeiro jornal totalmente digital do Brasil. Comprou equipamento muito antes que os concorrentes. A Folha investiu muito dinheiro em tecnologia. A nossa equipe procurava muito discutir sobre a nova tecnologia que estava chegando. Trouxemos muitos profissionais de Nova Iorque para dar cursos, palestras e treinamentos. Neste momento houve uma super valorização da nossa equipe. No “boom” de 1998, quando surgiram os sites, novas publicações impressas, todos os fotógrafos da nossa equipe foram convidados para trabalhar nessas novas mídias. Diante disso, conseguimos aumentar o salário de todos.
Foi uma experiência belíssima. Teve um momento que consegui convencer os diretores do jornal a ter um editor de fotografia só para tecnologia. Enfim, acho difícil conhecer alguém que teve uma relação tão feliz e próspera da tecnologia digital como eu tive na Folha. É claro, a equipe e eu.

RP – O avanço da tecnologia das novas máquinas fotográficas digitais possibilitou o fotógrafo disparar desenfreadamente, diante disto, criou-se a sensação de desvalorização da estética da imagem. Alguns críticos afirmam que o romantismo da fotografia esta acabando. Você concorda com esta afirmação?
João – Absolutamente não concordo. Quando foi criada a câmera 35 mm, com filme de rolo de 36 posses, provavelmente as pessoas tiveram essa mesma dificuldade. Acho que é uma questão de tempo. Também acredito que essa sensação de desvalorização da estética é falsa, porque as digitais permitem que os fotógrafos produzam muito mais, elas ajudam apurar e melhorar esteticamente a elaboração da imagem. Acredito no contrário. Esta sensação que a fotografia não tem mais romantismo, que a estética esta acabando, é uma falsa impressão causada pela nossa ignorância diante da tecnologia. Na medida que você conhece a tecnologia, começa a usar regularmente, normalmente, resgatando seus conhecimentos da analógica e embutindo na digital, o fotógrafo só tem a acrescentar, enriquecer sua imagem esteticamente, jornalisticamente, e em todos os sentidos.
Desde que comecei, a tecnologia tem evoluído. Nunca dei muita bola para isso. Sempre me preocupei mais com o conteúdo do contexto. Acredito que a tecnologia veio para facilitar nossas vidas. Isto permite que o fotógrafo dedique-se mais tempo ao conteúdo e estética adequada.
Diria que de 100 casos das pessoas que não compreendem bem a tecnologia digital, 99 % delas me disseram bobagem. Um ou outro disse algo com sentido, mas o resto provavelmente se arrependeu. Certa vez, tive uma polêmica via Internet com o fotógrafo chamado Orlando Brito, que muitas vezes me atacava pessoalmente. Numa ocasião ele me insultou dizendo que; “… quem fotografava com digital era digígrafo”, automaticamente respondi; “quem não fotografa com digital era digibobo, porque não sabia que o estava perdendo”. Orlando ficou revoltado. Enviou e-mail para várias pessoas falando mal de mim. Um ano e meio depois, Brito comprou uma digital e, hoje em dia, possui muitos equipamentos digitais. Duvido que ele concorde com ele. Ele pode não concordar comigo, mas concordar com ele mesmo, ele também não concorda.

RP – Qual a sua opinião sobre a implantação e consolidação da fotografia digital no fotojornalismo?
João – A fotografia digital vai dominar totalmente. Mas sempre permitirá que alguns fotógrafos façam filmes e cromos. Não se pode dizer que o filme vai acabar, porque não vai. Irá diminuir, será artigo de luxo, chique como o preto e branco ficou. Antigamente o filme preto e branco era uma involução tecnológica, hoje é uma sofisticação estética.
Por vários motivos a grande massa irá produzir em digital, certamente o maior álibi é o econômico. O mercado vai ficar muito restrito para quem não possui equipamento digital.

RP – Atualmente, os fotógrafos estão preparados para absorver toda esta tecnologia digital?
João – Não. Mas isto também não me assusta. Justamente por dois motivos; primeiro porque vai acabar acontecendo de uma maneira ou outra, mais rapidamente ou menos rapidamente, depende da pessoa. Vai haver evolução, quem ficar para trás, ficou. Quem dominar a tecnologia digital vai se dar melhor. O segundo motivo são as gráficas. As pessoas que dão suporte para esta tecnologia estão menos preparadas que os fotógrafos. As gráficas sabem menos. A coisa vai melhorar quando as gráficas estiverem preparadas para dar suporte corretamente. Há um ano, quando cheguei na Editora Globo, pessoas me diziam que, com a fotografia digital não dava para trabalhar. Argumentei; “… ou a gente aprende fazer digital ou a gente fecha”. Não tem essa de ficar no impasse, se devemos ou não devemos, não temos escolha. Hoje tudo é digital.

RP – Atualmente, o fotojornalista é fotografo e operador de computador?
João – O fotojornalista não é um operador. É um jornalista mais completo. Hoje o autor tem que editar, tratar, arquivar, etc…, ele que decide quais fotos que vão para redação. Isto é uma questão jornalística, não é uma questão técnica. É o autor que decide a foto. É certo que digital obriga o fotografo a trabalhar muito mais. O fotógrafo se compromete com seu trabalho. O segredo de fazer bons clicks é se doar para a pauta. O ideal é que você saiba o que esta falando para expressar o que quer. A digital obriga o fotógrafo estudar e doar-se muito mais.

RP – Existe a possibilidade do fotojornalista se extinguir do mercado?
João – Não. Depois de 35 anos de profissão, cada vez me sinto mais seguro que tenho trabalho até morrer. Não existe a possibilidade do fotojornalista se extinguir. O fotojornalista vai sobreviver. O que vai acontecer é que ficarão apenas os melhores. A tecnologia facilita para todos, é democrática que ela faz. Quem for bom, vai para frente.
É claro que o digital vulgarizou um pouco. Mas acredito que vendemos o conteúdo que sabemos: não vendemos tecnologia, não vendemos facilidade técnica, vendemos sabedoria. Quanto mais souber, mais a pessoa vai se dar bem. Também é muito necessário dominar o repertorio de linguagem técnica da fotografia, quanto mais souber melhor é.

RP – Você acredita que um repórter de texto possa ser um fotojornalista?
João – Perceba, se competir uma dupla (um reporte de texto que escreve muito bem e um fotografo que fotografa muito bem), contra uma pessoa que escreve e fotografa muito bem, é óbvio que a dupla vai ganhar, são dois, um apenas pensa em fotos, o outro pensa texto, duas pessoas pensam melhor que uma.
Esta convergência gera problemas de qualidade. Os jornais americanos já tentaram fazer isso e não deu certo. Eles perdiam na qualidade. Portanto, economiza-se no dinheiro, mas perde na qualidade, conseqüentemente, perde leitor, anunciante. Então está economizando o que? Uma coisa é certa: O emprego de bom jornalista nunca vai acabar.

* Entrevista realizada em 2008 por Rodrigo Paiva, fotojornalista da Folha de São Paulo e do UOL, ex aluno do curso de fotojornalismo aqui da galeria, ministrado pelo fotógrafo João Bittar, falecido em dezembro passado e que será homenageado na mostra FotoRetrospectiva 2011.

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