Eu acredito que se nasce fotógrafo.

Por Val Lima

Quando não é preciso recorrer aos créditos para saber quem é o fotógrafo é porque ele já tem seu estilo e já criou sua marca. E é isso que acontece com a fotografia de Karime Xavier.  Fotógrafa da Folha de São Paulo,  na sessão mercado aberto, Karime levou seu estilo para retratar os empresários e seus negócios usando técnicas como o light painting, longa e dupla exposição, flashs e cores, criando um retrato moderno e sintonizado com nossa era de movimento e muita informação e sem o uso do photoshop. E mesmo com todas as mudanças trazidas por essa era tecnológica, Karime acredita que a fotografia não mudou, porque o olhar continua o mesmo. Para ela “quem é fotógrafo é fotógrafo, se nasce fotógrafo, e isso não mudou”.

Como e quando você começou a fotografar e quais foram os  maiores aprendizados que a fotografia lhe trouxe?

Comecei a fotografar aos 16 anos em Curitiba e nunca tive muitas dúvidas de que era isso que eu queria fazer. A fotografia sempre foi a minha melhor amiga. Se eu estou deprimida, se estou eufórica, é ela quem segura minha onda, que está sempre do meu lado. E o que eu acho mais extraordinário é que é uma profissão que me proporciona ir do luxo ao lixo, que me permite ver de uma sessão de sadomasoquismo, um processo de embalsamento, à posse de um presidente, que me permite circular entre o mundo e o submundo.

Sua fotografia tem uma unidade estética bastante clara e não é muito difícil identificar uma foto sua. Como se dá seu processo de criação?

Não vejo uma unidade estética no meu trabalho não. Não quero ficar conhecida como a fotógrafa do light painting, até porque eu faço outras coisas.

Foto Karime Xavier

No seu trabalho pessoal você brinca com a pop arte. Como é misturar essa linguagem à fotografia?

Eu brincava sim com a pop arte. Antes gostava mais do colorido, mas a medida que eu fui mudando, que a vida foi mudando, fui ficando mais sóbria, mais monocromática. Parei o Malboro, que é um símbolo do pop e comecei a fazer ioga. E depois que comecei a fazer ioga fui migrando para algo mais oriental e as coisas que você vai vivendo na vida começam a fazer parte do seu trabalho e vice versa. E fui me permitindo flutuar nas ideias, ver as imagens que vão vindo, sem críticas, sem ter medo de se expor. Não importa se é bom ou ruim e é preciso ter cara de pau pra se expor.

Vendo o seu trabalho hoje, o que as tuas fotografias te ensinam? E como isso se reflete nos seus workshops?

A fotografia me ensinou a ser cara de pau. O que ajuda a não ter muitos pudores, a trocar uma ideia. É preciso conversar muito com as pessoas que eu fotografo e isso se reflete na relação com os alunos, numa tentativa de deixar os alunos e as pessoas que eu fotografo mais à vontade. É essa cara de pau que contribui a não ter medo do aluno e isso auxilia no aprendizado.

Você brinca bastante com a luz, trabalha com fontes como lanterna, palito de fósforo e luz do celular. O que te levou a trabalhar com fontes tão diferentes, e até inusitadas, de iluminação?

No começo foi por falta de grana mesmo. Eu não tinha dinheiro para comprar tochas e outros equipamentos, então, precisei me virar com o que eu tinha mesmo. E depois, mesmo com o estúdio e com todos os equipamentos dos quais eu precisava, nunca abandonei minhas lanternas. Eu sou curiosa, gosto de estudar, de pensar na luz, na composição. Fico fazendo testes em casa.

Foto Karime Xavier

Você fotografa o formal universo de empresários e executivos de uma maneira bastante criativa, fugindo dos retratos mais tradicionais. Como foi para você abrir um espaço para publicar fotos tão diferentes num mercado conservador e o que continua te desafiando nesse trabalho?

Foi sem querer. E eu não imaginava que a coluna fosse crescer tanto. Eu vinha do Guia da Folha, gostava de fotografar gente. E a coluna foi indo, foi crescendo. Eu não conhecia nada de economia, o que foi bom, não conhecia as pessoas, o que eu queria era fazer uma foto louca. E essa ignorância acabou me ajudando. O maior desafio da coluna é tentar não se repetir. É um desafio diário. Eu faço outras coisas, mas estou sempre fazendo o mercado aberto. Já entrei em crise, já pirei muito, porque tem que produzir uma coisa original quase todo dia. E esse processo criativo era angustiante porque ele passou a ser produzido em série. Só agora estou conseguindo deixá-lo prazeroso. Porque quando você trabalha com criatividade, isso pode ser bem exaustivo, é preciso recorrer a pesquisa para não esgotar tal recurso. Até porque eu não uso photoshop nas minhas imagens.

No video de divulgação do seu curso, realizado aqui na Ímã, você pontua questões como liberdade, persistência e a necessidade de não se acomodar. Hoje, diante de tantas mudanças no mundo da fotografia, como você pensa essas questões? Mudou alguma coisa? 

Eu continuo acreditando nas mesmas coisas, na liberdade, na persistência, no não se acomodar. E não acho que a fotografia esteja mudando muito, o olhar continua o mesmo. Tem mais gente fotografando, mas eu não acredito que o número de fotógrafos aumentou não. O acesso à fotografia está mais fácil sim, mas quem é fotógrafo é fotógrafo, se nasce fotógrafo, e isso não mudou. Se a pessoa não tem olho, não tem talento, não tem pegada, outras coisas mais interessantes virão. Eu acho que se nasce fotógrafo, que a gente vem com isso. É possível estudar, mas não há explosão se a pessoa não carrega isso com ela, porque a fotografia é um estilo de vida, um jeito de se portar no mundo, de olhar, de se observar. Caso contrário, é preciso ter muita perserverança. E tem muita gente boa começando, mas é preciso se despir de qualquer efeito de instagram e queimar muito pixel pra ser um bom fotógrafo.

4 comentários sobre “Eu acredito que se nasce fotógrafo.

  1. Belo texto! Belíssima entrevista! Concordo com a Karime, pois também entendo que certos dons ou aptidões vem junto, já nasce com a gente. O fato de ser alfabetizado e de saber ler não nos transforma imediatamente em escritores. Com a fotografia acontece o mesmo.

  2. Adorei o texto da Karime, além de muito criativa ela parece ser muito realista.
    Eu concordo plenamente com a frase dela e ainda complemento, eu não só acho que um fotógrafo se nasce como também acho que a fotografia escolhe o fotógrafo.
    Parabéns pelo lindo trabalho.

  3. Que contradição afirmar que ser fotógrafo é um dom e depois dizer que para ser um bom fotógrafo “tem que queimar muito pixel”. Ora, se tem que queimar muito pixel para ser um bom fotógrafo é que porque a fotografia é “aprendida” sra fotógrafa…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s